Animal silvestre não é pet. Diga não ao tráfico de animais!

Instituto Raquel Machado - Animal Silvestre não é Pet

Animais silvestres como papagaios, tucanos, araras, macacos e jabutis não são pets. E a maioria das pessoas desconhece esse fato e muitos têm esses bichos em casa como animais de estimação.

Seja porque acham bonitinho, que nos fazem companhia ou vimos com alguma personalidade nas mídias sociais.

Mas para conhecermos mais sobre esse assunto e importância de deixar os animais silvestres na natureza, a fundadora da Estilo 5.0+ Cintia Ruggiero convidou a Dra. Raquel Machado, fundadora do Instituto Raquel Machado, para conversar com a gente.

A Dra Raquel Machado é médica dermatologista, proprietária da Clínica Raquel Machado de dermatologia e estética e idealizadora do projeto Instituto Raquel Machado

O Mantenedouro da Dra Raquel Machado

A Dra. Raquel sempre foi apaixonada pela natureza e animais. Ela é mineira e quando mudou para São Paulo, sentiu a necessidade do contato com a natureza. Então, há 17 anos, comprou um sítio em Porto Feliz e herdou um cachorro e um papagaio, do antigo proprietário.

Mas ver o papagaio na gaiola onde nem conseguia abrir as asas, a incomodava demais e, pensando o que poderia fazer por ele, construiu inicialmente um recinto com mais espaço para que ele pudesse ter mais mobilidade e voar.

Mas não foi suficiente, ela queria tentar um processo de reabilitação e soltura na natureza para o papagaio. Para isto ela procurou o IBAMA e descobriu uma realidade que desconhecia.

Entendeu que quando a polícia ambiental apreende animais, vítimas de tráfico ou maus tratos, não tem para onde ir. Geralmente levam para centros de reabilitação específicos: o CRAS (Centro de Reabilitação de Animais Silvestres) ou o CETAS (Centro de Triagem de Animais Silvestres).

Dra Raquel explica que no Brasil, há vários CRAS e CETAS.  Os animais recolhidos vão para esses locais para serem cuidados e tratados. Dependendo do caso, são direcionados para soltura ou para mantenedouros ou criadores conservacionistas, como por exemplo no caso de filhotes, que já não há como soltar porque não têm mais os pais para ensiná-los a sobreviver na natureza.

Os animais que passaram por todo esse trauma, muitos ficaram dentro de gaiolas superlotadas e chegam a ser colocados em tubos de pvc e garrafa pet e ainda vivem numa condição horrível quando são resgatados, por falta de condição. São muitos animais apreendidos semanalmente e muitos não têm para onde ir.

Diante desse cenário, a Dra. Raquel, mesmo sendo contra animais em cativeiro, optou por construir um mantenedouro (local autorizado pelo Ibama, que tem como objetivo criar e manter animais da fauna silvestre em cativeiro com recintos para abrigar os animais), que não tem condição de soltura, para dar uma qualidade de vida mais digna.

Começou com o papagaio, herança do sítio, depois vieram outros papagaios, tucanos, periquitos e araras, quando precisou construir novos recintos. Depois vieram os macacos bugio, em especial naquela época de surto de febre amarela em SP onde áreas de mata foram dizimadas.  Recebeu filhotinhos de bugio ainda na mamadeira. Com o aumento da quantidade de animais, sempre há a necessidade de ampliar o espaço.

Dra Raquel comenta que tem recebido muitos macacos prego nos últimos anos. Isso motivado por jogadores de futebol ou cantores que usam o macaco prego como pet. Então as pessoas olham os macaquinhos de fraldinha e também querem ter um.

Quando eles são filhotinhos são uma gracinha, mas a medida em que vão crescendo, normalmente se tornam agressivos, mordem as pessoas e vira um problema para a pessoa que tirou o macaco da natureza e agora não quer mais ficar com ele. Muitas soltam o macaco na natureza e ele vai acabar morrendo ou entregam para o CRAS, que tem outro problema porque os macacos vivem em grupo na natureza e não podem ser devolvidos para a mata individualmente. É necessário juntar vários para soltar na natureza.

As pessoas desconhecem esses fatos. Dra Raquel salienta que, mesmo dentro da sua Clínica dermatológica, muitas pessoas que ficam sabendo sobre a existência do Instituto e o cuidado com animais silvestres comentam que o filho está querendo um macaco e ela faz questão de explicar todo o histórico que ela acabou de nos relatar.

A Dra. Raquel, com o intuito de informar e educar as pessoas, criou o Instituto Raquel Machado.

O Instituto Raquel Machado

Durante mais de 10 anos a Dra. Raquel acolheu animais em seu mantenedouro como pessoa física, como médica apaixonada pelos animais para dar acolhimento e oferecer melhor qualidade de vida.

Nos últimos anos, ela quis fazer um trabalho que tivesse um impacto maior. Ela entende que todos os brasileiros precisam saber o que acontece com os animais silvestres no nosso país. Alertar que animal silvestre não é pet e cada um tem sua função na natureza.

É isso que ela gostaria de falar para as pessoas. Educar e orientar.  Melhorar a qualidade de vida dos animais e cuidar do meio ambiente.

Além disto, o mantenedouro, que hoje tem 200 animais, depende 100% do trabalho de médica da Dra. Raquel.  Na sua falta, ela pensa que, toda esta responsabilidade ficará para os filhos, que embora também gostem de animais, e apesar de esperar que deem continuidade, ela também entende que é seu sonho pessoal e não de outras pessoas e nem dos filhos. Por essa razão precisa que o mantenedouro caminhe sem a sua dependência exclusiva.

Portanto, o Instituto Raquel Machado nasceu, como uma ONG, com o incentivo e apoio fundamentais de sua amiga advogada Débora e sua sobrinha Renata e tem os objetivos de:

  • Educação ambiental contra a caça e tráfico de animais silvestres
  • Continuidade do mantenedouro sem a dependência exclusiva da Dra Raquel

Reabilitação e soltura dos animais, um sonho pessoal

O Instituto se propõe também a fazer um trabalho de reabilitação e soltura para os animais. Mas para que isso aconteça precisa ter áreas naturais onde os animais possam viver, explica a Dra Raquel.

Para isto, o Instituto tem duas reservas em Mato Grosso do Sul. Uma na divisa com o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense – ICMBio, onde é feito  trabalho de monitoramento e pesquisa. É o  xodó da Dra. Raquel que quer deixa-la intacta para os animais.

A outra área fica próxima a Bonito, onde acontece o reflorestamento para também ser transformada em reserva. O Instituto faz o monitoramento de araras; foram colocados vários ninhos artificiais para que possam ter seus filhotes e a Dra. Raquel terminou de criar um recinto para receber um filhote de tamanduá bandeira para reabilitação e soltura, em parceria com o Instituto Tamanduá.

Quando recebeu os filhotes de bugio na época da febre amarela, ela reforça que a febre amarela é transmitida por um mosquito que quando o macaco é picado, ele morre. Não é o macaco bugio quem transmite a febre amarela para o homem, mas o mosquito, apesar de muita gente achar que o macaco transmite para o homem. Por essa razão, além de muitos macacos terem morrido por causa da febre amarela outros foram mortos por pessoas.

É importante o macaco ficar na mata porque se ele morrer é um importante indicador de que aquela área está doente.

O Instituto Raquel Machado irá fazer um trabalho de educação e soltura dos macacos, em grupo, em parceria com Secretaria de meio ambiente do Estado de São Paulo, que serão vacinados, com a vacina da febre amarela. Se soltar, sem vacinar, as mortes voltarão a ocorrer.

São animais recebidos ainda filhotinhos. Procuram ter pouco contato com eles e cada vez mais os alimentam com o que poderão encontrar na natureza, como parte do processo de adaptação. Na verdade, o sonho da Dra. Raquel é que em 1 ano ou 2 possa fazer a soltura deles.

Soltura das Araras

Outro sonho da Dra Raquel que ela quer transformar em realidade é viabilizar a soltura de araras na região de Porto Feliz de onde sumiram por conta da produção da cana de açúcar na região, o desmatamento e o tráfico de animais.

Ela entende que levará tempo porque precisa fazer a educação ambiental com crianças, adolescentes e famílias de Porto Feliz. Importante elas terem orgulho da fauna e do retorno da mata atlântica na região e serem educadas para não traficar. É difícil, mas é possível. Este primeiro passo está sendo dado através da parceria com Secretaria de Educação de Porto Feliz através de um programa de educação ambiental para 700 crianças, da 7a série das escolas municipais.

Tudo isto está alinhado com a missão do Instituto:

  • Acolher os animais
  • Fazer um trabalho de reabilitação e soltura
  • Educação ambiental

Animal silvestre não é pet!

A Dra. Raquel quer fomentar a cultura do brasileiro que animal silvestre não é pet. Ela reforça:

“Não dá para ter um macaco, um papagaio ou uma arara. Você tira a função básica deles que é voar e viver livre na natureza. Além da consequência ambiental. Sem os animais silvestres uma floresta não existe.”

“Quer ter um passarinho, vai admirar num parque. Se você gosta de aves, quer ver a felicidade deles, não dentro de uma gaiola. Vá ver na natureza.”

“O brasileiro deve ter orgulho de ver a fauna dele livre. Ter qualquer passarinho dentro de uma gaiola é uma vida horrorosa”

São muitos macacos-prego apreendidos semanalmente. Frequentemente ela semana recebe pedidos para ter mais macacos-prego, mas, infelizmente não há mais espaço disponível. Outro desafio é a dificuldade de socialização do macaco-prego.  Se for filhote, o bando até aceita. Mas quando se for adulto é muito difícil a aceitação pelo grupo.  Dá briga, confusão. Quando já há um grupo formado que recebe um filhote, a aceitação é boa, no início.  Mas à medida em que o filhote cresce, podem não se entender.

Recentemente a Dra. Raquel conta sobre o caso de um macaco-prego idoso, uma velhinha, de 40 anos de idade, que viveu acorrentada durante 40 anos. Mas houve rejeição do grupo. Precisou criar um outro recinto para coloca-la. Hoje em dia ela está bem e integrada.

O transporte dos animais traficados também é muito cruel. A Dra Raquel comenta que tem uma arara cega. Provavelmente devido às práticas realizadas pelos traficantes em cegar os animais para facilitar o seu transporte.

Para cada 10 animais traficados, 9 são mortos.

As aves são os animais mais traficados, com destaque para os papagaios. Eles fazem seus ninhos dentro de palmeiras. Quando o traficante retira o filhote de papagaio da palmeira, eles abrem a palmeira até embaixo, destruindo os futuros ninhos.

Ninhos Artificiais para abrigar filhotes de papagaios:

http://papagaiosdobrasil.com.br/2019/05/31/projeto-papagaio-verdadeiro-ganha-acao-piloto-com-uso-de-ninhos-artificiais/

Enquanto houver pessoas comprando os animais silvestres, haverá o tráfico! E, infelizmente, as leis são brandas; o traficante não vai preso; só paga uma multa, quando paga e continua traficando. Precisa ser preso. O crime não pode compensar, Dra. Raquel desabafa.

Grandes projetos do Instituto

Bonito: Duas reservas para receber o filhote do tamanduá bandeira, os ninhos artificiais para que as araras possam procriar porque o desmatamento diminuiu muito a quantidade de árvores.

Projeto Bonito Não Atropela: para conscientizar motoristas e evitar os atropelamentos de animais e adaptar as estradas para colocar sinalizações, lombadas, criar passagens superiores e embaixo das rodovias para os animais. O projeto está sendo realizado em parceria com várias instituições e o governo para redução de atropelamento que tem impacto gigantesco na fauna local.

Ela destaca que há um índice elevado de animais atropelados. Considerando somente os animais de grande porte, que incluem tamanduás bandeiras, antas, onças, veados, antas, entre outras espécies, morrem no Brasil anualmente 40milhões de animais vítimas de atropelamento. É assustador. A fauna está sendo dizimada por conta dos atropelamentos.

É um projeto superimportante que vem caminhando no Mato Grosso do Sul e que a Dra. Raquel espera ser um exemplo também para outros estados.

Araras em Porto Feliz: projeto de educação ambiental com as escolas municipais de conscientização da população para a volta das araras.

Pantanal: Fazenda Santa Sofia – Projeto, em parceria com outros investidores, na fazenda Santa Sofia, para soltura de animais vítimas de tráfico na região. Provavelmente com início neste ano.

Projeto Rio Azul: recentemente foi iniciado um projeto no Rio Azul com o objetivo de levar investidores para o sul da Amazônia, com o objetivo de criar um corredor verde para os animais. São dois milhões de hectares preservados.

Aeroporto Amigo da Fauna: está sendo realizado em 4 aeroportos do Mato Grosso, desenvolvido em parceria com outras ONGS, a orientação dos funcionários em como agir no caso de carga suspeita de tráfico de animais. O objetivo é reduzir e inibir o tráfico.

A Dra. Raquel está feliz em poder contribuir com a defesa ambiental e acolhimento dos animais silvestres. E todos deveriam contribuir um pouquinho, nem que seja separando o lixo doméstico. Um pouco de cada um trará um grande resultado para o meio ambiente.

Sobre a legalização de venda de animais silvestres no Brasil

Segundo a Dra Raquel, a legalização de venda de animais silvestres é um problema no Brasil porque a lei permite a venda da 2a geração de animais que foram traficados, ou seja, o(a) neto(a).

Por esta razão a gente pode ver animais silvestres sendo vendidos em pet shops, mas a origem veio do tráfico. Portanto, na opinião da Dra Raquel, a pessoa estará estimulando o tráfico de animais, apesar de algumas pessoas acharem que não.

Muitas vezes uma pessoa quer ter um papagaio dentro da gaiola olhando para ela dentro da sua cozinha. E falando com ela, fazendo companhia. Infelizmente vai achar facilmente no pet shop, pelas redes sociais e teoricamente legalizadas, mas, na maioria das vezes, não são.

Além disto, é comum que os animais apreendidos de traficantes que inicialmente foram para o CRAS, mas por falta de espaço, acabam indo para o criador comercial. Novamente, um animal de origem no tráfico que o neto poderá ser vendido legalmente.

Então é mandatório que as pessoas não comprem animais silvestres, sendo legalizados ou não, para impedir o tráfico e evitar atrocidades contra estes animais como por exemplo as araras azuis, em extinção, com asas atrofiadas por falta de espaço e que nunca mais irão se abrir, nem voar.

Como as pessoas e empresas podem colaborar

Acesso a Informação:  o Instituto Raquel Machado disponibiliza uma série de informações disponíveis no site https://institutoraquelmachado.org.br/  e na página do Instagram @institutoraquelmachado

Denuncie o tráfico e maus tratos de animais – no site do Instituto Raquel Machado você tem todas as informações disponíveis, inclusive por região com os contatos para poder fazer a sua denúncia em caso de tráfico e maus tratos de animais. https://institutoraquelmachado.org.br/denuncia/

Apadrinhar animais: o Instituto planta muitas frutas para os animais, mas ainda incorre em custos elevados em alimentos para manter os animais. O apadrinhamento é uma fonte importante para captação de recursos.

A pessoa pode apadrinhar um animal, se tiver interesse. Ou uma empresa que queira ajudar a construir mais um recinto para abrigar novos animais.

Reflorestamento: o Instituto fez uma parceria com a SOS Mata Atlântica com o objetivo de reflorestar a área de mata atlântica ao redor do lobo guará que irão receber. https://www.sosma.org.br/

E as empresas podem ajudar no projeto de reflorestamento.

Educação Ambiental em Porto Feliz: empresas podem contribuir com esse projeto na construção de espaços.

Crédito de carbono: existem áreas, por exemplo, no rio Azul em que as empresas podem investir e transformar posteriormente em crédito de carbono. Além de conservar o meio ambiente, ainda recebem os créditos.

Acompanhar os movimentos dos nossos políticos: Já existe uma predisposição maior pela proteção ambiental e junto aos animais silvestres. Mas é fundamental leis que regulamentem melhor esse setor.

Recentemente foi criada a Lei sanção: contra maus tratos de animais domésticos que poderia ser ampliada para animais silvestres. Lei Sansão 14.064/20 para quem tiver interesse em ler e saber mais https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/10/21/sancionada-lei-que-proibe-sacrificio-de-caes-e-gatos-saudaveis

A bancada ambientalista no governo do Brasil ainda é muito pequena. Mas já temos bons deputados que têm feito um bom trabalho. Mas isso precisa crescer.

Recado final: animal silvestre não é pet!

Se você se identificou com o propósito do Instituto Raquel Machado e quer participar ou colaborar de alguma forma, faça contato pelo site ou instagram:

Site : https://institutoraquelmachado.org.br/

Instagram: @institutoraquelmachado

Assista a entrevista da Dra. Raquel Machado na íntegra: Acesse:

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Um abraço!

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