Conscientização da violência contra idosos

Conscientização da violência contra idosos

15 de junho é o Dia Mundial de Conscientização da Violência Contra a Pessoa Idosa.

Há vários tipos de violência contra o idoso, não só a física.

Para que a gente possa entender mais sobre isso e ajudar a combater esta atitude covarde, a fundadora da Estilo 5.0+, Cintia Yamamoto, convidou Claudia Fló, especialista no assunto para esclarecer o tema.

Claudia Fló é Doutora em Fisiopatologia Experimental e Envelhecimento Humano pela USP. Atualmente é Coordenadora da Área Técnica de Saúde do Idoso na Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Claudia foi Professora de Mestrado em Fisioterapia na UNICID, Presidente da Comissão de Título de Especialista em Gerontologia, Presidente de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Presidente do Conselho Estadual do Idoso de São Paulo e Fundadora da Sequoia Sênior Care.

O que é considerado como violência contra idoso?

Claudia explica que é considerada violência contra idoso, qualquer ato contra a pessoa ou algo que você deixe de fazer e que cause danos à pessoa, independentemente da quantidade de vezes. Por exemplo, se você deixar de dar um medicamento ou alimentação adequada para um idoso,  é uma violência.

Se você causar danos, sofrimento ou angústia na pessoa idosa, é considerado violência, não só a agressão física.

Quando a gente considera violência? Infelizmente, geralmente a violência é praticada por uma pessoa com quem o idoso tem uma relação próxima e de confiança. Por exemplo, um filho com uma mãe, duas irmãs, uma amiga.

Quais são as principais causas de violência contra os idosos.

Segundo Claudia Fló, há várias causas de violência contra os idosos como por exemplo, o uso de drogas de quem mora com ele, a falta de recursos financeiros e, muitas vezes, esse idoso pode ter sido uma pessoa muito ruim para os filhos e quando ele está velho e frágil, o agressor acha que é o momento para se vingar. É horrível, mas acontece.

Quando um pai abandona a família com filhos pequenos, deve ter havido muito sofrimento naquela família, seja com falta de comida, ou outras necessidades. E quando ele volta, após tantos anos para pedir, por exemplo, para ser cuidado. Espera-se que não tenha sido formado um vínculo com a separação de tantos anos.

Houve um aumento do número de denúncias de violência de 59% entre 2019 e 2020 destaca Claudia.

Ainda não há dados disponíveis do período da pandemia, apesar de haver uma suspeita de que este número deve ter sofrido queda principalmente porque quando o idoso tem a oportunidade de sair para rua,  ir a uma consulta, a um centro de convivência, ou ir à igreja, alguém pode ver alguma coisa, ou ele pode se queixar para alguém, o que não pode acontecer porque precisamos ficar isolados em casa, durante mais de um ano.

A situação da falta de denúncia é agravada não só pelo fato dos idosos serem naturalmente invisíveis para a sociedade, como também pelas pessoas que tendem a não comentar casos de violência que possam ter acontecido em sua família.

Entendendo os tipos de violência contra os idosos

Muitas pessoas tem uma falsa percepção sobre o que é violência contra o idoso. A violência física é muito clara porque é caracterizada por agressões corporais como muitas divulgadas pelos vídeos no youtube, mas existe a violência psicológica, que também é terrível. Claudia nos fala sobre algumas:

Frases ofensivas ditas repetidamente: Imagine uma pessoa ouvir todos os dias de um filho ou filha frases como: “Nossa, você ficou uma inútil, agora não faz mais nada. Para que você serve?” ou “Você fazia um arroz tão gostoso, agora nem para fazer arroz você presta?”

Isso não machuca a pele da pessoa, mas machuca a alma. É horrível.

Falar num tom elevado: Um filho ou uma filha falando em voz alta num supermercado com seu pai ou mãe. E chegamos a pensar: se num ambiente aberto fala alta desse jeito, imagina em casa. Isso também é um tipo de violência.

Outro tipo muito comum é a violência financeira: Por exemplo, pegar o cartão do aposentado e usar o dinheiro da aposentadoria para outras coisas e não comprar o que é devido para o idoso. Muitas vezes deixar o idoso com a roupa puidinha. “Comprar roupa nova para esse idoso, para que? Não comprar os medicamentos para o idoso.  “Medicamentos estão muito caros; não vamos comprar não”.

Ou ainda, que também ocorre com frequência, pedir o crédito consignado, em nome do pai, da mãe ou do avô. Muitas vezes o neto pode pedir para a avó fazer o empréstimo, podendo até ameaçar a pessoa idosa para fazer.

Negligência: Por exemplo deixar de comprar uma roupa, deixar de cuidar adequadamente, deixar o leito da pessoa que fez as necessidades na cama sujo por muitas horas.

Abandono: infelizmente muitas pessoas idosas são abandonadas em leitos de hospitais, residenciais de idosos e até na rua.

Discriminação contra o idoso: Um exemplo foi quando a OMS resolveu criar um código que caracterizava a velhice como doença. O movimento contra foi tão grande, no Brasil, inclusive, com o tema “ Velhice não é doença” que a OMS voltou atrás e não implementou o código.

Outro exemplo de discriminação é negar leito para o idoso no hospital ou dar preferência para um jovem em detrimento da pessoa idosa.

Na pandemia, ficou escancarado que muitas vezes esse idoso é arrimo de família. Ou seja: a sua aposentadoria sustenta toda a família.

A violência contra o idoso é considerada crime

Claudia esclarece que a violência contra o idoso é considerada crime e já consta no estatuto do idoso que é responsabilidade dos filhos cuidar dos pais.

Mas, muitas vezes os filhos não têm condições de cuidar dos pais. Por exemplo, um usuário de drogas e familiares sem recursos, podem ser violentos com os pais. Não dá para colocar a culpa e a responsabilidade só na família.

Na opinião de Claudia está na hora da gente aprender em relação a muitas coisas, não só em relação aos idosos, mas também em relação as crianças e adolescentes, que todos tem que colaborar – não dá para esperar que o governo faça tudo, que a família faça tudo, tem que ser uma coisa feita em conjunto: o estado, a família, a comunidade, a igreja do lugar, a iniciativa privada, o terceiro setor. Não necessariamente cuidando do idoso, mas por exemplo, uma empresa pode criar uma ILPI que seja sustentada por ela para que os idosos podem ser colocados e ali cuidados. Às vezes é melhor colocar numa instituição que tem alguém cuidando do idoso, do que em casa sofrendo todo tipo de violência.

Às vezes a casa é da pessoa, do idoso, e ainda acontece tudo isso. É muito triste.

Não adianta a gente esperar que só o estado resolva a situação. Daqui a 8 anos vamos ter mais gente com mais de 60 anos do que jovens.

O que podemos fazer para diminuir a violência contra idosos

Todos podemos tomar algumas ações para diminuir a violência contra o idoso. Claudia dá alguns exemplos:

Esclarecer, dar informação quando presenciar uma situação que caracterize violência: Às vezes o familiar não percebe que o idoso pode ter uma demência ou estar num processo inicial e por esta razão repete várias vezes a mesma coisa, o que deixa a pessoa nervosa. Você pode sugerir uma investigação. Pílulas de informação podem ajudar.

Ser um agente replicador: Conversar com outras pessoas, sempre que possível, esclarecendo sobre os tipos de violência contra o idoso, como podem agir. Ensinar e aprender também. Seria ótimo a mídia ajudar na divulgação dessas situações.

Denunciar casos de violência: Tem o Disque 100 (Disque Direitos Humanos), Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) que recebem denúncias anonimamente, são gratuitos e funcionam 24 horas por dia, todos os dias da semana, segundo o site gov.br. De acordo com o mesmo site, você também pode baixar o aplicativo “Proteja Brasil”, disponível para IOS e Android para fazer a denúncia e acompanhar o andamento.

Ou então ir até a delegacia mais próxima, no Conselho Municipal do Idoso ou na Delegacia do Idoso. Lembre-se que  você pode até evitar um homicídio.

Claudia chama atenção que as vezes a pessoa idosa tem consciência que está sendo agredida, mas é o filho ou a filha que está fazendo isso. E não denuncia porque se o filho ou a filha for preso, não terá quem cuide dela. Existe também o aspecto emocional, mesmo com as agressões, o sentimento de maternidade e paternidade.

E como a gente sabe que a violência está acontecendo? Claudia exemplifica alguns sintomas identificados na área de saúde. No caso de uma consulta em que está machucada e diz que bateu em algum lugar, mas não levanta os olhos para olhar o profissional de saúde. O médico faz uma pergunta e a pessoa fica de cabeça baixa. E o acompanhante é quem responde. Esse pode ser um sinal.

Ou quando o acompanhante faz um gesto brusco e a pessoa já se encolhe toda.

O profissional de saúde tem a obrigação de fazer uma notificação do que está acontecendo. Não é abrir um inquérito. Mas tem que notificar.

Talvez você também possa identificar sinais semelhantes e, mesmo não sendo um profissional de saúde, como cidadão, a gente tem a obrigação social de denunciar.

Claudia comenta que dependendo do que for, é o caso de a polícia ir ao local para ver o que está acontecendo. Às vezes a pessoa grita porque tem Alzheimer. Grita porque grita. É até comum isso. Mas precisa ver se é isso mesmo. Como ela já explicou, não é só agressão física que é considerada violência ao idoso, constranger, humilhar, negligenciar, desviar bens, dinheiro ou benefícios de idosos também são formas de agressão e de violência. Afinal a gente tem que zelar pela dignidade dos idosos. E não permitir que sofram qualquer tratamento desumano, violento e constrangedor. Além de ter a legislação própria contra a violência do idoso, a gente não pode lavar as mãos.

Abandono dos idosos em hospitais e nas ruas, uma triste realidade

Infelizmente o abandono de idosos nos hospitais  é muito comum, como Claudia Fló já afirmou anteriormente. Quando isto ocorre, ela explica que a Assistente Social é quem cuida disso, um trabalho muito bonito mas difícil.

A Assistente Social tenta encontrar algum familiar que possa cuidar do idoso, primeiro pelo telefone da pessoa que deixou o idoso no hospital. Muitas vezes os idosos ficam meses abandonados nos hospitais, mesmo depois da alta hospitalar.

Nos casos de abandono, seja em hospitais ou nas ruas, existem as ILPIs ( Instituições de Longa Permanência). Mas o número é insuficiente.

Por isso, mais uma vez na opinião de Claudia,  temos que trabalhar todos juntos porque não é só encontrar um lar para todos os idosos que foram abandonados. Há também as crianças que foram abandonadas, os adolescentes que são usuários de drogas e as meninas que engravidam e as famílias põem para fora de casa. É necessária uma consciência coletiva para que a gente faça a nossa parte. Pensar o que a gente pode fazer e como pode ajudar. Por exemplo adotando uma ILPI, recolhendo alimentos não perecíveis e doando para uma instituição. Não significa que vai resolver tudo, mas é uma forma da sociedade ajudar.

Centros Dia e Centros de Convivência

Claudia destaca o serviço oferecido pelo Centro Dia ou Centro da Longevidade Ativa. São lugares para idosos independentes ou semi- dependentes, onde ele pode ficar o dia inteiro. É bem cuidado, alimentado, recebe seus medicamentos e volta para casa no final do dia.

Ela entende que poderia ajudar a reduzir a quantidade de abandonos por falta de condição da família cuidar do idoso porque estando nestes locais, a família pode trabalhar e o idoso volta para casa à noite, já cuidado, com o banho tomado às vezes até já jantou, não é um trabalho tão grande para a família. E no final de semana, o idoso fica em casa com a família. Então não perde o vínculo familiar, que é fundamental.

Esse tipo de serviço é maravilhoso. Mas precisaria ter muitas unidades. Tem que ser um lugar mais próximo da casa do idoso porque muitas vezes o idoso não tem como ir andando, ou de cadeira de rodas.

O Centro de Convivência é um lugar destinado para convívio social de idosos independentes, onde podem fazer atividades de lazer como  ginástica, assistir um filme, uma aula e fazer um artesanato.

Existem unidades municipais, estaduais e particulares, tanto de Centros Dia como de Centros de Convivência.

Doações de parte do imposto de renda devido para o Fundo do Idoso – uma forma de ajudar

Todas as pessoas físicas e pessoas jurídicas podem doar parte do imposto de renda devido para o fundo estadual do idoso ou para o fundo municipal do idoso, explica Claudia Fló.

É um dinheiro que a pessoa perde para o imposto de renda. Fazendo a doação, pelo menos, fica você sabe que vai para um fundo e pode acompanhar.

Importante procurar saber se existe fundo do idoso o seu município. Há cerca de 300 municípios no estado que tem fundo municipal do idoso. E quem pode usar esse dinheiro do fundo? Esse dinheiro só sai do fundo se o conselho fizer um edital de chamamento público para ações e projetos que sejam para idosos.

As pessoas se lembram de dar fraldinha para bebês porque são bonitinhos. Mas idoso não tem o mesmo apelo.

Colocamos aqui um link se você quiser saber mais sobre as regras de doação ao Fundo do Idoso.

Dicas da Claudia para investir no seu capital social!

  • Tenta não levar as coisas tão a sério e se ajustar enquanto você ainda é mais jovem.
  • É muito chato ter uma pessoa ao seu redor que reclama o tempo todo.
  • Preste atenção em como você é e trata as pessoas, inclusive as mais velhas

Poupança que a gente faz para a vida. Um investimento no seu capital social! Aí a chance de ter gente com você é grande.

Assista a entrevista com a Claudia Fló na íntegra. Acesse:

Venha participar da jornada da revolução da Longevidade com a gente.

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Um abraço,

Time Estilo 5.0+!

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