A morte é talvez uma das únicas certezas que temos na vida. Essa é uma frase comum que ouvimos até com certa frequência nas mais diferentes situações. Mas será que as pessoas aceitam facilmente, estão preparadas para lidar com a perda ou pensar em sua própria finitude?
Segundo a filósofa Lúcia Helena Galvão, o estoicismo tem uma máxima: “Memento mori”: uma expressão em latim que significa literalmente “lembre-se de que você vai morrer” ou “lembre-se da sua mortalidade”
Nós, mulheres maduras, que já vivemos muitas histórias e testemunhamos tantas transformações, a conversa sobre o fim não precisa ser um tabu. Pelo contrário, ela pode ser um ato de coragem, amor e, acima de tudo, liberdade.
Por que evitamos esse assunto?
Embora a mídia escancare a morte em situações diárias dentro nas matérias do cotidiano, geral somos relutantes em falar livremente sobre esse tema. Alguns pontos de resistência:
- O Tabu Cultural: No Ocidente, escondemos o envelhecimento e a morte como se fossem falhas ou erros do destino.
- O Medo do Desconhecido: O silêncio traz pavor e faz com que a perda de alguém amado seja ainda mais devastadora e solitária.
- A Ilusão do Controle: Achamos que, se não tocarmos no assunto, ele nunca vai acontecer
Por que é tão importante falar sobre isso agora?
Primeiro, porque o tempo é um professor implacável. Ele nos mostra, a cada ruga e a cada cabelo branco, que a vida é um ciclo. Falar sobre o fim não é desistir de viver, mas sim reconhecer e honrar essa realidade. É uma oportunidade de olhar para trás com gratidão e para frente com clareza.
Liberdade e Leveza
Conversar abertamente sobre a finitude da vida nos liberta de um fardo invisível. Quando não discutimos nossos desejos para o futuro — ou para o momento final — abandonamos uma série de decisões e preocupações para nossos filhos, parceiros ou outras pessoas amadas.
Planejar o futuro nos permite ter controle sobre nossa própria narrativa até o fim. Isso inclui coisas práticas como definir um testamento, organizar documentos ou expressar desejos sobre tratamentos de saúde.
O Dr. Venceslau nos recorda que a finitude da vida é um tema importante e delicado
O Dr. Venceslau Coelho, formado em Geriatria pela Universidade de São Paulo e Clínica médica pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná, especialista em Geriatria pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, médico colaborador do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e integra o Núcleo Avançado de Geriatria do Hospital Sírio-libanês, nos lembra que falar sobre a finitude da vida é importante, delicado e necessário.
Confira a seguir trechos do nosso bate papo com Dr. Venceslau Coelho.
Lidar com a finitude da vida é um assunto médico diário
Dr. Venceslau, enquanto médico geriatra, lida com a finitude da vida diariamente e entende que falar sobre esse tema ainda é um tabu para a maior parte das pessoas.
Ele comenta que se olharmos um pouco para a história, vamos ver que, por muito tempo, as pessoas faleciam em casa. Com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, passaram a falecer no hospital e agora parece haver uma tendência, dependendo do estado do paciente, de fazer com que as pessoas voltem a falecer nas suas casas.
Diretivas Antecipadas de Vontade – O que é
Diretivas Antecipadas de Vontade é um planejamento que ser feito sobre aquilo que você quer e aquilo que você não quer que seja feito durante um tratamento médico e hospitalar, principalmente num possível estado em que não consiga se comunicar.
Mas alguém precisa falar sobre isso e muitas vezes cabe ao médico essa iniciativa.
Motivos comuns da dificuldade de falar sobre a finitude da vida
No passado as pessoas morriam em casa. Mais recentemente, as pessoas insistem em manter seus familiares idosos vivos por mais tempo, com o uso da tecnologia e sem qualidade de vida.
Veja as iniciativas que muitos profissionais de saúde estão utilizando para dar aos pacientes mais qualidade de vida:
- Cuidados Paliativos
- Medicina integrativa
- Livros que debatem as questões de finitude.
Na opinião do Dr. Venceslau, há um melhor momento para as pessoas partirem. No entanto, quando acontece a interferência no processo com o uso da tecnologia para adiar a partida, não dá para garantir que a pessoa terá uma boa vida nesse período estendido.
E vem a pergunta: os médicos estão preparados para falar sobre a finitude da vida com os pacientes e os familiares?
Segundo o Dr. Venceslau, os médicos, no geral, não estão preparados para dar a “notícia ruim”. Há o médico, ou profissional de saúde, que tem que lidar com a finitude do seu paciente. E cuidar também do acolhimento da família. E há o médico, ser humano, que também tem que lidar com a finitude dos seus próprios entes queridos.
É necessário um treinamento para lidar com o final de vida e não são todas as especialidades médicas que têm esse ensinamento e acolhimento para o profissional de saúde.
E quais são os problemas mais comuns que a pessoa ou a família enfrenta quando não se discute sobre a finitude da vida? Segundo o Dr. Venceslau, são várias questões. Mas o ideal é começar por ouvir o paciente. Mas muitas vezes a família não quer que o paciente saiba do seu real estado de saúde. E fica mais difícil cuidar de alguém que não tem o direito de falar das suas dores, das expectativas, do que é importante para ele, o que deve realizar antes de morrer etc.
Segundo o médico, as doenças graves testam a família como unidade na tomada de decisão. E ele vê que tem muito do papel do médico de conversar com todos. Às vezes ele conversa com a família, às vezes com o paciente e muitas vezes com todos juntos.
Mas inicialmente há uma negação da situação. Ao verbalizar nossos desejos, evitamos que nossas famílias fiquem sobrecarregadas com decisões difíceis em momentos de luto. É um ato de amor e cuidado com quem amamos.
Sobre a Morte e o Morrer – Elisabeth Kübler-Ross
A pesquisadora e psiquiatra Elisabeth Kubler-Ross em seu livro, fala sobre as sobre as fases que antecedem a morte. Segundo ela são 5 estágios: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação.
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Elisabeth Kubler-Ross descreve nessa obra que se tornou um clássico , as experiências de pacientes terminais, suas agonias e frustrações, numa tentativa de encorajar as pessoas a não se afastar dos doentes condenados, mas aproximar-se deles e ajudá-los em seus últimos momentos.
Livro: Mortais – Atul Gawande
Além dessa obra, o Dr. Venceslau recomenda a leitura do livro Os Mortais, do autor americano, médico e cirurgião, Atul Gawande, onde declara o quão despreparado estava para lidar com a finitude do seu próprio pai.
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Por meio de uma pesquisa reveladora e de histórias comoventes tanto de pacientes quanto da própria família, Gawande revela suas limitações. De maneira provocadora e honesta, Mortais reflete sobre o caminho que devemos percorrer para lidar sabiamente com a nossa própria finitude.
Processos em casos de doenças incuráveis em estágios avançados:
- Distanásia – A distanásia, também conhecida como prolongamento artificial da vida ou obstinação terapêutica, refere-se à prática de utilizar intervenções médicas para manter a vida de um paciente terminal, mesmo quando não há perspectivas razoáveis de recuperação.
- Ortotanásia: permite-se que a vida do paciente cesse naturalmente, com o uso de Cuidados Paliativos, a fim de garantir ao paciente o maior conforto possível em seu tempo restante de vida. Não ocorre a ação de interromper a vida do paciente, mas sim a omissão em forçar sua manutenção.
- Eutanásia (*): é a prática de interromper, ativamente, a vida do paciente, em estado irreversível, a fim de cessar seu sofrimento. Na eutanásia, a equipe médica administra a dose no paciente.
- Suicídio Assistido (*): a equipe médica fornece medicamentos e o próprio paciente administra a dose fatal
(*) Tanto a eutanásia como o suicídio assistido são considerados crimes no Brasil. A Constituição Federal prevê como direito fundamental e irrenunciável, o direito à vida.
A importância da definição das Diretivas Antecipadas de Vontade ou Testamento Vital
A Diretiva Antecipada de Vontade ou Testamento Vital é a manifestação formal de vontade de forma antecipada, em relação aos cuidados e tratamentos médicos para momentos em que a pessoa estiver incapacitada de se manifestar.
Para ajudar nesse processo, duas perguntas são importantes, segundo o Dr. Venceslau:
- Caso você fique muito grave e não consiga tomar decisões, quem as tomará por você?
- Caso você fique muito grave e o seu filho/sua filha não consiga fazer o que o você pediu, como você vê isso? O paciente pode decidir se o médico pode seguir o que a pessoa designada decidiu ou não. Ou se a vontade do paciente deve predominar.
Quando o paciente já decide o que ele quer, fica mais fácil porque na conversa do médico com os familiares, ele pode reforçar a vontade do paciente. Mas a angústia da família pode mudar as decisões do paciente.
Cuidados Paliativos
Segundo a OMS-Organização Mundial da Saúde, Cuidados Paliativos consistem na assistência promovida por uma equipe multidisciplinar que objetiva a melhoria da qualidade de vida do paciente e seus familiares, diante de uma doença que ameace a vida, através da prevenção e alívio do sofrimento. É feita a avaliação precoce, tratamento da dor e demais sintomas físicos, sociais, psicológicos e espirituais.
“A maioria dos grandes hospitais em São Paulo hoje têm a sua própria equipe de cuidados paliativos” orienta o Dr. Venceslau. É preciso tirar o preconceito. Quando o médico diz para a família que vai chamar os cuidados paliativos, a família acha que o paciente vai morrer num curto espaço de tempo.
Os profissionais de Cuidados Paliativos são treinados e preparados para iniciar conversas que, muitas vezes, os familiares não conseguem ter. Conversar sobre as questões do paciente, quanto ele ou ela quer falar sobre a doença, resolver questões de relacionamento, questões materiais, emocionais.
Os profissionais de Cuidados Paliativos são formados e treinados para cuidar do paciente por longo tempo.
Sugestões para abordar o tema Finitude da Vida
Dr. Venceslau nos dá algumas sugestões de como começar a falar sobre a finitude da vida. Ele diz que ninguém gosta, mas em algum momento as pessoas precisam decidir sobre a finitude de alguém, ou da própria pessoa.
- Para quem quer e se acha preparado para decidir sobre a própria finitude: deixar um documento pronto de como quer que a tratem. Existem muitos documentos e ebooks na internet. Podem pesquisar como Testamento Vital ou Diretiva Antecipada de Vontade.
Aqui segue o link da SBGG- Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia: https://sbgg.org.br/minhas-vontades-aplicativo-das-diretivas-antecipadas-de-vontade/
- Quando a pessoa não quer, mas precisa falar sobre a finitude da vida. O ideal é conversar com um médico ou um profissional de saúde que possa ajudar. Muitas pessoas não têm condição emocional para lidar com essa situação. Nesse caso é melhor chamar um psicólogo; um profissional para ajudá-la.
- “Cartas na Mesa” – jogo de cartas muito interessante que ajuda a falar sobre o assunto e estimula a conversa com o paciente sobre suas preferências ao final da vida. São cartas com frases que o paciente vai selecionando e definindo suas preferências: “não quero dar trabalho para meu filho”, quero um médico que possa confiar etc.”.
Na opinião do Dr. Venceslau é uma oportunidade para ouvir os pacientes, facilitando para eles a expressão das suas vontades e preferências em relação ao final da vida. É ótimo para família e para os pacientes.
Jogo Cartas na Mesa da SBGG -Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia

Dr. Venceslau – Contatos
Consultório do Dr. Venceslau Coelho: (11) 91318-5339.
Vamos encarar a conversa sobre a finitude não como um adeus, mas como uma forma de viver plenamente e com propósito. É um convite para abraçar a vida com toda a sua beleza e complexidade, e para ter a certeza de que a história que vivemos foi exatamente como queríamos que ela fosse. Que tal começar essa conversa hoje?
Assista o bate papo integral da nossa Fundadora com o Dr. Venceslau Coelho acessando o canal do YouTube da Estilo 5.0+:
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Um abraço!
Time Estilo 5.0+
Fontes:
https://vidasimples.co/colunista/o-que-muda-ao-nos-depararmos-com-a-finitude-da-vida/
https://paliativo.org.br/finitude-e-o-sentido-da-vida/
Vídeos:
Como lidar com a finitude? Ana Beatriz – 06:05
Finitude da vida – Denise fraga – 01:22
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Por que a finitude nos assusta? douglasbaro -01:34
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anaclauquintanaarantes- Por que insisto tanto em falar sobre a morte? 00:48
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