Finitude da vida. Você já pensou sobre isso?

A morte é a única certeza que temos na vida. Essa é uma frase comum que ouvimos até com certa frequência nas mais diferentes situações.

“Ama como se fosses morrer hoje” dizia o filósofo grego Sêneca.

É grande o número de pessoas que, quando passam pela experiência da morte de um ente querido, ficam com a sensação de que poderiam ter amado um pouco mais.

Mas será que é importante refletir e falar sobre a finitude da vida? Esse tema continua sendo um tabu? Falar sobre a nossa finitude ou de um ente querido pode trazer algum benefício?

Finitude da vida é um tema importante e delicado. Para falar sobre isso, Cintia Yamamoto, fundadora da Estilo 5.0+ convidou o geriatra, Dr. Venceslau Coelho para conversar com a gente sobre esse tema.

O Dr. Venceslau Coelho é formado em Geriatria pela Universidade de São Paulo e Clínica médica pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná, especialista em Geriatria pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, médico colaborador do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e integra o Núcleo Avançado de Geriatria do Hospital Sírio-libanês.

Mesmo com o aumento da longevidade, falar sobre a finitude da vida continua sendo um tabu

Pela característica da sua especialidade como geriatra, o Dr. Venceslau lida com a finitude da vida diariamente e entende que falar sobre esse tema ainda é um tabu, mas que muitos médicos estão se esforçando para ajudar a desconstruir e que esse tabu varia muito do quanto as pessoas conseguem conversar sobre esse assunto.

Ele comenta que se olharmos um pouco para a história, você vai ver que por muito tempo as pessoas faleciam em casa. Com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, passaram a falecer no hospital e agora existe uma tendência, dependendo do estado do paciente, de fazer com que as pessoas voltem a falecer nas suas casas. A tecnologia fez com que as pessoas vivessem mais, mas não necessariamente melhor.

Recentemente, o Dr. Venceslau conversou com a família de um paciente e deu a ele um papel com questões de Diretivas Antecipadas de Vontade, que é um planejamento que você pode fazer sobre aquilo que você quer e aquilo que você não quer fazer durante um tratamento. O paciente ficou surpreso positivamente em poder falar sobre a finitude da vida e comentou “Que bom que o senhor pode falar sobre isso comigo, todo mundo morre.”

E o Dr. Venceslau explicou que as pessoas adoecem e depois morrem. E é fundamental que o médico saiba o que é importante para a pessoa, principalmente num possível estado em que ela não consiga dizer ou comunicar aquilo numa determinada situação de saúde.

Mas é um tabu e alguém precisa falar sobre isso e quebrar esse tabu. E muitas vezes é o médico que tem que fazer isso, reforça o Dr.Venceslau.

Motivos comuns da dificuldade de falar sobre a finitude da vida

Dr. Venceslau entende que talvez a gente tenha ficado mais distante do sofrimento ou da partida porque no passado, as pessoas morriam em casa, como aconteceu com seus avós.

Outro motivo, na opinião dele, é que existem algumas questões dessa transformação social que a pessoas estão vivendo com relação a morte de que a tecnologia pode dar suporte para as pessoas; postergar ao máximo a morte e que elas fiquem mais tempo por perto. Aí há várias questões envolvidas. Queremos que essa pessoa esteja com a gente por mais tempo.  Mas quem vai ficar ali? O Dr. Venceslau costuma ver que as pessoas insistem em manter seus familiares idosos vivos por mais tempo, mas não têm qualidade de vida. Então é importante entender um pouco mais sobre isso. E é um tabu que muitos profissionais de saúde estão tentando desconstruir.

Dr. Venceslau dá alguns exemplos: hoje existe a sociedade de cuidados paliativos e a medicina integrativa que trabalha um pouco essas questões de finitude. Existem autores publicando sobre esse assunto. A Sociedade Brasileira de Geriatria recentemente publicou um material sobre o fim de vida para doenças não oncológicos. Ele explica que esse material descreve essa situação de maneira ampla porque as pessoas acham que quando o paciente tem câncer, ele irá morrer em breve ou não, dependendo do tratamento. Mas a gente não olha para outras doenças que não são oncológicos, como por exemplo, uma insuficiência cardíaca grave, uma insuficiência hepática grave, uma insuficiência renal grave, uma disfunção pulmonar grave. Onde também há risco.

O Dr. Venceslau comenta que acredita que estamos caminhando para um modelo em que as pessoas possam entender, e isso depende muito dos profissionais de saúde, que as pessoas são finitas.

Na sua opinião, há um melhor momento para as pessoas partirem. Quando acontece a interferência no processo, com o uso da tecnologia para adiar esse momento, ele acha que não necessariamente a pessoa vá ter uma boa vida nesse período estendido. Entendendo que está falando de pessoas da área da geriatria, com várias doenças, limitadas e frágeis.

Os médicos estão preparados para falar sobre a finitude da vida com os pacientes e os familiares?

A fundadora da Estilo 5.0+, Cintia Yamamoto começa a abordar esse tema sobre o preparo ou não dos médicos para falar sobre a finitude da vida com os pacientes e familiares citando o livro Mortais. Ela menciona que se surpreendeu quando no livro, o autor Atul Gawande que é um médico cirurgião americano, declara abertamente o quão mal preparado estava para lidar com esse tema quando teve que lidar com a finitude do próprio pai.

O Dr. Venceslau comenta que acha que os médicos, no geral, não estão preparados para lidar com a finitude da vida. Ele acrescenta que é necessário um treinamento para lidar com o final de vida e não são todas as especialidades médicas que têm esse treinamento e acolhimento do próprio profissional de saúde.

O Dr. Venceslau nos conta que participou recentemente de um congresso onde uma psicóloga falou sobre “como dar más notícias”, o que também é uma arte. Por exemplo, que o exame veio ruim, que algumas outras coisas não vão melhorar, etc.  Essa psicóloga comentou o caso de uma família que estava esperando no consultório do médico, uma notícia boa sobre um familiar, mas a notícia não era boa. Quando o médico entrou na sala onde a família estava nessa expectativa, a psicóloga estava ao lado do médico e ele responde:  “ela, a psicóloga, vai conversar com vocês sobre os resultados do exame”. Além de conversar com os familiares, a psicóloga ficou mais de meia hora confortando, acolhendo e dando apoio para o médico, porque ele não conseguia dar a notícia ruim para a família.

Quando alguém tem uma expectativa muito positiva e você tem que dar uma notícia ruim você quebra essa expectativa e tem que ter um certo preparo que, em geral, os médicos não têm. Uma forma de você se proteger nesse momento é blindar as suas emoções, criar distanciamento e só então dar a notícia ruim.  Tem gente que é mais preparada, mas é necessário ter um treinamento para isso.

Quando o Atul Gawande escreveu o livro, já nas primeiras páginas você percebe que existem questões afetivas. Ele é um indiano, o pai era uma pessoa muito importante e lidar com a finitude do pai, ele sendo médico, foi muito difícil.

Existe o médico, profissional de saúde, que tem que lidar com a finitude do seu paciente, que é ruim e ele precisa cuidar do acolhimento da família e há o médico, ser humano, que também tem que lidar com a finitude dos seus entes queridos que também é ruim. No geral, ele acredita que os médicos não estão preparados, finaliza Dr. Venceslau.

Quais os problemas mais comuns que a pessoa ou a família enfrenta quando não se discute sobre a finitude da vida

O Dr. Venceslau responde que são várias questões. O ideal é ouvir a pessoa que é o paciente, mas em muitas situações depende muito da família.

Muitas vezes, a família não quer que o paciente saiba. Ele explica que é muito difícil cuidar de alguém que não tem o direito de falar das suas dores, das expectativas, do que é importante para ele, o que deve realizar antes de morrer, etc. Tem família que se desorganiza quando há alguém doente e não sabe lidar com uma doença grave na família. Ele costuma dizer que as doenças graves testam a família como unidade e na tomada de decisão.

O que ele vê é que tem muito o papel do médico de conversar com todo mundo. Às vezes conversa com a família, às vezes com o paciente, com todo mundo junto. Existe inicialmente uma negação da situação.

O Dr. Venceslau cita a pesquisadora e psiquiatra sobre as fases que antecedem a morte: Elisabeth Kübler-Ross, que constam do seu livro “Sobre a Morte e o Morrer”. Segundo ela são 5 estágios:  negação, raiva, negociação, depressão e aceitação.

Mas a família também passa por tudo isso e precisa ser guiada nessa estrada do sofrimento, da esperança, e atenção com a esperança porque às vezes a família não deixa morrer e deveria permitir a partida no tempo certo.

Ele entende que a família precisa ser mais esclarecida e informada, principalmente sobre o prognóstico, diagnóstico e em qual estágio está a doença.

O Dr. Venceslau dá alguns exemplos de situações reais em que a conversa ou a falta de conversa sobre a finitude da vida de um ente querido pode trazer situações adversas:

  • Uma paciente que estava internada com demência avançada e as três filhas concordaram que não teria que fazer nenhuma medida radical e que ela faleceria tranquilamente no quarto, com cuidados paliativos, sem sofrimento. Mas aí chegou o quarto filho pedindo para fazer tudo que era possível pela sua mãe. Ela foi internada na UTI, entubada, mas infelizmente faleceu. Os médicos chamam esse processo de Distanásia.

Distanásia – é a prática pela qual se prolonga, através de meios artificiais e desproporcionais, a vida de um enfermo incurável.

Ortotanásia: permite-se que a vida do paciente cesse naturalmente. Admitem-se cuidados paliativos, a fim de garantir ao paciente o maior conforto possível em seu tempo restante de vida. Não ocorre a ação de interromper a vida do paciente, mas sim a omissão em forçar sua manutenção.

Eutanásia: É a prática de interromper, ativamente, a vida do paciente, geralmente em estado irreversível, a fim de cessar seu sofrimento.

  • Outro exemplo – um paciente de 90 anos diagnosticado com câncer no intestino e inicialmente disse que não queria operar porque já tinha vivido bem, etc. e a família achava que ele tinha que operar. Nessa hora a família pode se desorganizar. Mas o médico pode ajudar conversando com o paciente e decidir junto com ele, de acordo com a complexidade da cirurgia.
  • Há outras situações com doenças crônicas graves não oncológicas, como a demência por exemplo. Dr. Venceslau já tratou de casos conversando e combinando com a família em como lidariam com os possíveis sintomas do paciente. Muitas vezes os familiares se sentem aliviados em poder ouvir isso. Algumas vezes não é permitido pensar em deixar a mãe partir e aliviar o seu sofrimento então esticam o processo da vida, que também fica mais doloroso para o paciente.

A importância da definição das Diretivas Antecipadas de Vontade ou Testamento Vital

A Diretiva Antecipada de Vontade é a manifestação formal de vontade de forma antecipada, em relação aos cuidados e tratamentos médicos para momentos em que a pessoa estiver incapacitada de se manifestar.

Dr. Venceslau comenta que é comum o paciente decidir antecipadamente a maneira, ou até que ponto ele quer ser tratado, mas quando vai chegando mais perto desse momento, a família vai ficando tão angustiada que ela não consegue seguir aquilo que tinha sido combinado.

Para ajudar nesse processo, duas perguntas são importantes, segundo ele:

  1. Caso você fique muito grave e não consiga tomar decisões, quem as toma por você? É importante se certificar de que a pessoa já sabe e se o paciente esclareceu as suas vontades para essa pessoa porque há muitas que não conseguem seguir as vontades. Há muita angústia envolvida.
  2. Caso você fique muito grave e o seu filho/sua filha não consiga fazer o que o você pediu. Como você vê isso? A pessoa pode decidir se o médico pode seguir o que a pessoa designada decidiu ou não, se deve tentar fazer prevalecer a vontade do paciente.

Quando o paciente já decide o que ele quer, fica mais fácil porque na conversa do médico com os familiares, ele pode reforçar a vontade do paciente. Mas a angústia da família pode mudar as decisões do paciente.

Então o médico tem que lidar com essas questões, mesmo nos Estados Unidos, onde as definições de Diretivas estão mais evoluídas, nem sempre são seguidas pelas pessoas e familiares, alerta o Dr. Venceslau. Ainda temos muito que evoluir nesse sentido.

Cuidados Paliativos e a Morte Assistida

Segundo a OMS-Organização Mundial da Saúde, Cuidados Paliativos consistem na assistência promovida por uma equipe multidisciplinar, que objetiva a melhoria da qualidade de vida do paciente e seus familiares, diante de uma doença que ameace a vida, por meio da prevenção e alívio do sofrimento, por meio de identificação precoce, avaliação impecável e tratamento de dor e demais sintomas físicos, sociais, psicológicos e espirituais.

Dr. Venceslau explica que os cuidados paliativos têm avançado muito no Brasil. A Associação Nacional de Cuidados Paliativos é muito ativa e uma instituição muito séria e competente.

A maioria dos grandes hospitais em São Paulo hoje têm a sua própria equipe de cuidados paliativos. E precisamos tirar o preconceito porque quando o médico diz para a família que vai chamar os cuidados paliativos, a família acha que o paciente vai morrer num curto espaço de tempo.

O grande benefício, segundo o Dr. Venceslau é que os profissionais de Cuidados Paliativos são treinados e preparados para iniciar conversas que, muitas vezes, as pessoas e familiares não conseguem ter.

Conversar sobre as questões do paciente, quanto ele ou ela quer falar sobre a doença, resolver questões de relacionamento, questões materiais, emocionais. São formados e treinados para cuidar do paciente por longo tempo.

Qualquer especialidade dentro da medicina, qualquer profissional pode também ter a formação em cuidados paliativos.

A morte assistida, segundo o site da Forbes, é um ato em que a própria pessoa, auxiliada por terceiros (em muitos países é um médico), toma a decisão de, com a ajuda de remédios, por fim à sua vida. Aqui no Brasil, existem questões éticas, morais e legais e o ato é considerado crime.

A impressão que o Dr. Venceslau tem é que não há uma regulamentação pelo CRM no Brasil para morte assistida como existe na Holanda por exemplo.

No Brasil existem alternativas como sedação paliativa que é a prática de aliviar sintomas intoleráveis e sofrimento de uma pessoa com doença terminal, mas a morte assistida não é autorizada.

Sugestões para abordar o tema Finitude da Vida

Dr. Venceslau nos dá algumas sugestões de como começar a falar sobre a finitude da vida. Ele diz que ninguém gosta, mas em algum momento as pessoas precisam decidir sobre a finitude de alguém, ou da própria pessoa.

  1. Para quem quer e se acha preparado para decidir sobre a própria finitude – pode deixar um documento pronto de como quer que a tratem. Existem muitos documentos e ebooks na internet. Podem pesquisar como Testamento Vital ou Diretiva Antecipada de Vontade.

Aqui segue o link do Documento Diretivas Antecipadas de Vontade da SBGG – Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia 

  1. Quando a pessoa não quer, mas precisa falar sobre a finitude da vida – o ideal é conversar com um médico ou um profissional de saúde que possa ajudar. Muitas pessoas não têm condição emocional para lidar com essa situação.  Nesse caso é melhor chamar um psicólogo; um profissional para ajudá-la.

Dr. Venceslau comenta sobre um jogo de cartas muito interessante que se chama “Cartas na Mesa” que ajuda a falar sobre o assunto e estimula a conversa com o paciente sobre suas preferências ao final da vida através de cartas com frases que ele vai selecionando e definindo suas preferências. Alguns exemplos de frases: “não quero dar trabalho para meu filho”, quero um médico que possa confiar, etc”.

Na sua opinião, é uma oportunidade para ouvir os pacientes, facilitando para eles a expressão das suas vontades e preferências em relação ao final da vida. É ótimo para família e para pacientes.

Dr. Venceslau comenta ainda que quando não pode jogar diretamente com o paciente, pede para o familiar jogar.

Segue o link do Jogo Cartas na Mesa da SBGGSociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia

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Contato do consultório do Dr. Venceslau Coelho: (11) 91318-5339.

Outros links de assuntos comentados durante a entrevista com o Dr. Venceslau:

Link da Cartilha de Cuidados de fim de vida à pessoa idosa da SBGG – Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia

 

Livro: Mortais – Atul Gawande

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Livro: Sobre a Morte e o Morrer – Elisabeth Kübler-Ross

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Assista o bate papo integral da nossa Fundadora com o Dr. Venceslau Coelho acessando o canal do YouTube da Estilo 5.0+:

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Time Estilo 5.0+

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