TEPT- Transtornos do estresse pós-traumático. Você já ouviu falar?

Pandemia e transtornos do stress pós-traumático

Com a pandemia do coronavírus, os casos de TEPT aumentaram no mundo todo. Para saber mais sobre esse assunto, a Fundadora da Estilo 5.0+, Cintia Yamamoto, convidou para um novo bate-papo, Maria Ângela Rossetto. Vamos relembrar seu currículo:

Maria Ângela Rossetto tem mestrado pela Unifesp em distúrbios da comunicação, Professora titular há 30 anos das cadeiras de Psicopatologia, Psicologia do Desenvolvimento Humano e Método de Rorschach na Unfmu e atualmente na Unifesp. Perita nomeada na Vara da Família do Fórum de Santo Amaro e Avaliadora de Cursos de Psicologia pelo INEP e com vários trabalhos publicados em Congressos Nacionais e Internacionais.

Vamos aprender mais com ela sobre TEPT:

O que é TEPT – Transtorno de estresse pós-traumático

Maria Ângela explica que o TEPT – Transtorno de estresse pós-traumático é um distúrbio que se desenvolve num indivíduo que passa por um evento estressor muito violento, com risco de morte.

Ela também detalha um pouco da história do TEPT. Freud começou a estudar as pessoas que sobreviviam na 1ª. Guerra mundial e chamou esses sintomas de Neurose de Guerra.

Posteriormente, Karl Abraham, psicanalista alemão e um dos primeiros discípulos de Freud, estudou os combatentes da 2a. Guerra Mundial e publicou um livro chamado Neurose Traumática, que embasou todo o estudo sobre TEPT no século 20.

Em 1970, um grupo de pesquisadores americanos começou a estudar os relatos de pessoas que viveram em campos de concentração, a Guerra do Vietnã e vítimas de queimaduras. E identificaram 27 sintomas.

Em 1980, baseado nesses 27 sintomas validados por estudos, foi desenvolvido um manual estatístico de transtornos mentais que embasa os diagnósticos atuais e o termo neurose foi alterado para TEPT –transtorno de estresse pós-traumático.

Maria Ângela esclarece que o TEPT não afeta somente a pessoa que sofre a violência, mas pode afetar também quem testemunha a violência.

O TEPT pode acontecer em diversas situações, não somente de guerra, mas em casos de violência doméstica e urbana, catástrofes da natureza, assédio moral, assédio psicológico e em famílias disfuncionais.

O Data folha publicou em 2020, que 30% das pessoas sofriam de TEPT causado por violência doméstica.

O conhecimento sobre TEPT e as possibilidades de tratamentos evoluíram muito com base em 3 disciplinas:

  • Neurociência – que avalia o funcionamento cerebral e com a chegada da tecnologia de petscan que permitiu avaliar com mais clareza o funcionamento e a constituição do cérebro.
  • Psicopatologia do desenvolvimento – que estuda as influências ambientais no desenvolvimento da pessoa. Do útero até a morte.
  • Psicologia psicossocial – que analisa o indivíduo inserido na sociedade, num determinado grupo. Seu comportamento e o do grupo

Sintomas mais comuns do TEPT

A revivência do trauma, apatia, ficar sem interesse por nada. Não demonstra afeto, não demonstra preocupação com o outro, desesperança, negativismo, reações exageradas. Por exemplo, bate uma porta e a pessoa se assusta facilmente e grita. Invasão de cenas do trauma – flash back, crises de pânico, terror noturno e pesadelo, tenta não dormir para não ter esses sonhos, agitação, automutilação, pensamentos suicidas e agressões, detalha Maria Ângela e nos conta dois exemplos de pessoas que viveram estes traumas durante a 2a. Guerra Mundial:

  • Edith Eger, 94 anos, autora de A Bailarina de Auschwitz e A Liberdade é uma Escolha. Mesmo com todos os traumas que sofreu nos campos de concentração, conseguiu se tratar e se tornou doutora em psicologia aos 50 anos de idade.

Em uma entrevista, ela comentou que ainda sofre com os efeitos “flash back” dos campos de concentração, mesmo após 75 anos. E acredita que vai morrer com isso. Mas todos os dias celebra a vida e se produz com vestidos bem cortados e maquiagem caprichada, assim consegue minimizar a dor que ela sente.

  • Viktor Frankel, neuropsiquiatra e autor de Em Busca De Sentido: um psicólogo no campo de concentração, observava a resiliência e o comportamento de cada prisioneiro diante das torturas e da expectativa da morte. Essa análise e, claro, a sua própria sobrevivência, lhe permitiu criar uma linha utilizada em Psicologia, a Logoterapia, terapia focada em buscar o sentido da vida. Maria Ângela destaca uma frase de Viktor Frankl :

“Quando a situação for boa, desfrute-a. Quando a situação for ruim, transforme-a. Quando a situação não puder ser transformada, transforme-se.”

A pandemia como gatilho para a TEPT

“A pandemia chegou de repente! Imagine que num dia você está trabalhando no escritório e, no dia seguinte, na sua bolha, dentro de casa, junto com a sua família, em isolamento social.  Isso se tornou um pânico mundial e não tínhamos remédios eficazes contra o vírus. O que resultou numa grande angústia para o mundo todo. Ruas vazias, tudo fechado como num cenário de guerra. E as notícias da tv assustavam muito.

Noticiários mostravam hospitais que não tinham equipamentos, não tinham lugar, valas abertas para enterrar os mortos. Um massacre diário. O isolamento social nos afastou das pessoas queridas e dos amigos. A mulher ficou sobrecarregada porque além dos trabalhos domésticos da casa, ainda precisava ajudar o filho nos trabalhos da escola online.” contextualiza Maria Ângela e adiciona:

Em 8 abril de 2021 aconteceram 4300 pessoas por dia. E as questões que perturbavam a todos:  e se acontecer comigo? ou com alguém que eu amo?

Mesmo com a chegada da vacina, no início muitas Fake News como alteração de mudança no DNA, recomendação de remédios ineficazes, enfim todo esse cenário contribuiu para gerar quase um transtorno coletivo.

E hoje, ainda muitas pessoas estão com trauma de sair de casa. No consultório, Maria Ângela vê pessoas que chegam com a mão levantada para não tocar em nada.

Ressalta que a Fio Cruz e a ONU publicaram que de 1/3 à metade da população mundial desenvolveu transtornos mentais pós pandemia. E como podemos falar sobre pós pandemia se novas variantes ainda continuam por aqui?

No Brasil, aliada à pandemia, tivemos catástrofes terríveis como a de Minas Gerais, inflação, desemprego. E as pessoas se perguntam: isso não vai passar nunca?

E ainda há os sintomas psiquiátricos, sequelas de covid, que se desenvolveram pela infecção que o vírus causa no sistema nervoso central.

Na França, um instituto conceituado realizou uma pesquisa junto à população perguntando: A sua saúde mental está melhor ou não? No Brasil, 53% responderam que estava muito ruim. O Brasil só ficou abaixo da Itália, Hungria e Turquia.

Quem mais sofreu com a pandemia foram os profissionais de saúde da linha de frente, na opinião da Maria Ângela. Exaustão, hospitais de guerra, perdendo colegas e pacientes.

Diferenças entre homens e mulheres no que se refere ao TEPT

Maria Ângela destaca que o TEPT está muito mais presente na mulher, do que no homem. Para cada homem, há duas mulheres com transtornos. As causas podem ser: genética, hormonal, violência doméstica e a cobrança na sociedade.

O livro The Authority Gap (Lacunas da Autoridade), de Mary Ann Sieghart apresenta pesquisas que mostram que a própria mulher discrimina outra mulher.

Há um preconceito geral na sociedade que critica a mulher, que sofre muito mais com uma cultura já enraizada. Para pensar:

“Quando a criança chega na escola toda desarrumada, pergunta-se: que mãe é essa? E o marido com a roupa amassada: que esposa é essa?

“Os homens leem mais livros cujos autores são homens, do que  de autoras mulheres.”

Existe alguma maneira de evitar o TEPT?

Maria Ângela explica que infelizmente não há. As pessoas com autoestima mais elevada podem reagir melhor, apesar de não ser uma garantia.

Não dá para prever reações. Num assalto, você pode ficar parada, correr, reagir, ou discutir com o bandido.

Pessoas com resiliência elevada podem ter outro comportamento e até se transformarem. Alguns exemplos:

  • Mandela ficou 27 anos preso num cubículo e, quando libertado, continuou a sua luta contra o apartheid, ganhou o Nobel da Paz e se tornou Presidente do país.
  • A Maria da Penha, transformou as dores, as marcas no corpo e o trauma em uma luta pelos direitos da mulher
  • Lucinha Araújo, mãe do Cazuza, montou uma ONG para ajudar jovens e crianças com AIDS.

E há muitos outros casos que nem aparecem na mídia. Diariamente, mulheres enfrentam situações limitantes e saem para vender bolo na rua para sobreviver. E ainda dividem o que ganham com outras pessoas.

Em Brumadinho, tem mais gente querendo ajudar do que as soterradas. Esse lado do ser humano é muito bom. Alguns nasceram para serem humanos, outros para serem usurpadores.

Tratamentos possíveis do TEPT

O tratamento do TEPT normalmente é feito com medicação forte e psicoterapia, explica Maria Ângela.

“No início da terapia, apenas ouvimos o paciente e se evita fazer perguntas. À medida em que o tratamento evolui e o paciente se fortalece, instigamos o diálogo. Não dá para sugerir um relaxamento ou um esporte. A pessoa está apática. Não quer saber de nada.

O foco da terapia é sair do “por que eu” e pensar “e agora? O que posso fazer?

O ser humano sempre nos surpreende nas suas reações. E é único; não dá para generalizar.”

Dicas para o se fortalecer:

Boas leituras. Assista filmes leves. Assista os noticiários em horários específicos; não faça isso o dia todo. Busque o autoconhecimento.  “O que a gente não fala, o corpo sente”.

Deixe seu filho falar; estimule que ele fale. E escute.

Livros recomendados:

  • The Authority Gap (Lacunas da Autoridade) – Mary Ann Sieghart – e-book, em inglês.
  • A Bailarina de Auschwitz – Edith Eva Eger
  • A Liberdade é uma escolha – Edith Eva Eger
  • Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração- Viktor E.Frankl

Contato da Maria Angela mac_rossetto@hotmail.com.

Assista o bate papo integral acessando o canal do YouTube da Estilo 5.0+:

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