A morte é talvez uma das únicas certezas que temos na vida. Essa é uma frase comum que ouvimos até com certa frequência nas mais diferentes situações. Mas será que as pessoas aceitam facilmente, estão preparadas para lidar com a perda ou pensar em sua própria finitude?
Segundo a filósofa Lúcia Helena Galvão comenta em suas palestras, o estoicismo tem uma máxima: “memento mori”: “lembra-te de que vais morrer”. O grande pensador estoico, Marco Aurélio, diz para “tomar a morte por conselheira”. A finitude vai dar a nossa vida uma prioridade. E ajudar a selecionar o que vale do que não vale a pena.
Nós, mulheres maduras, que já vivemos muitas histórias e testemunhamos tantas transformações, a conversa sobre o fim não precisa ser um tabu. Pelo contrário, ela pode ser um ato de coragem, amor e, acima de tudo, liberdade.
Por que é tão importante falar sobre isso agora?
Primeiro, porque o tempo é um professor implacável. Ele nos mostra, a cada ruga e a cada cabelo branco, que a vida é um ciclo. Falar sobre o fim não é desistir de viver, mas sim reconhecer e honrar essa realidade. É uma oportunidade de olhar para trás com gratidão e para frente com clareza. Ao enfrentar a finitude, somos convidadas a nos perguntar: o que realmente importa? Essa reflexão nos ajuda a viver de forma mais intencional, a valorizar os pequenos momentos e a priorizar o que nos traz alegria e significado.
Liberdade e Leveza
Conversar abertamente sobre o assunto também nos liberta de um fardo invisível. Quando não discutimos nossos desejos para o futuro — ou para o momento final — deixamos para trás uma série de decisões e preocupações para nossos filhos, parceiros ou outras pessoas amadas. Planejar o futuro nos permite ter controle sobre nossa própria narrativa até o fim. Isso inclui coisas práticas como definir um testamento, organizar documentos ou expressar desejos sobre tratamentos de saúde.
Dr. Venceslau- geriatra, nos ajuda a conhecer melhor esse tema
Falar sobre a finitude da vida é importante e delicado. Por essa razão a Estilo 5.0+ conversou com o geriatra, Dr. Venceslau Coelho para conhecermos um pouco mais sobre esta questão.
O Dr. Venceslau Coelho é formado em Geriatria pela Universidade de São Paulo e Clínica médica pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná, especialista em Geriatria pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, médico colaborador do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e integra o Núcleo Avançado de Geriatria do Hospital Sírio-libanês.
Falar sobre a finitude da vida continua sendo um tabu
Falar sobre finitude da vida continua sendo um tabu, mesmo com o aumento da longevidade.
Dr. Venceslau, enquanto médico geriatra, lida com a finitude da vida diariamente e entende que falar sobre esse tema ainda é um tabu.
Ele comenta que se olharmos um pouco para a história, vamos ver que por muito tempo as pessoas faleciam em casa. Com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, passaram a falecer no hospital e agora existe uma tendência, dependendo do estado do paciente, de fazer com que as pessoas voltem a falecer nas suas casas. A tecnologia fez com que as pessoas vivessem mais, mas não necessariamente melhor.
Esta é uma das razões pelas quais é muito importante falar sobre questões chamadas tecnicamente de Diretivas Antecipadas de Vontade, que é um planejamento que você pode fazer sobre aquilo que você quer e aquilo que você não quer fazer durante um tratamento médico e hospitalar, principalmente num possível estado em que ela não consiga dizer ou comunicar aquilo numa determinada situação de saúde. Vamos falar um pouco mais sobre isso mais adiante.
Mas é um tabu falar sobre a finitude da vida e alguém precisa falar sobre isso e quebrar esse tabu. E muitas vezes é o médico que tem que fazer isso, reforça o Dr. Venceslau.
Motivos comuns da dificuldade de falar sobre a finitude da vida
Dr. Venceslau comenta que talvez um dos motivos seja que tenhamos ficado mais distantes do sofrimento, ou da partida dos entes queridos porque no passado as pessoas morriam em casa, como aconteceu com seus avós.
Muitas vezes as pessoas insistem em manter seus familiares idosos vivos por mais tempo, fazendo uso da tecnologia e da ciência, mesmo sem qualidade de vida do paciente. Então é importante entender um pouco mais sobre isso. E é um tabu que muitos profissionais de saúde estão tentando desconstruir através de alguns recursos:
- Cuidados Paliativos
- Medicina integrativa
- Livros que debatem as questões de finitude.
O Dr. Venceslau acredita que estamos caminhando para um modelo onde possamos entender que as pessoas são finitas. E os médicos podem ajudar a nos fazer entender.
Na opinião do Dr. Venceslau há um melhor momento para as pessoas partirem. Mas quando acontece a interferência no processo com o uso da tecnologia para adiar a partida, não dá para garantir que a pessoa terá uma boa vida nesse período estendido.
Os médicos estão preparados para falar sobre a finitude da vida com os pacientes e os familiares?
O Dr. Venceslau Coelho comenta que os médicos, no geral, não estão preparados para dar a notícia ruim. Existe o médico, profissional de saúde, que tem que lidar com a finitude do seu paciente, que é ruim e ele precisa cuidar do acolhimento da família e há o médico, ser humano, que também tem que lidar com a finitude dos seus entes queridos que também é ruim.
É necessário um treinamento para lidar com o final de vida e não são todas as especialidades médicas que têm esse ensinamento e acolhimento do próprio profissional de saúde.
Quais os problemas mais comuns que a pessoa ou a família enfrenta quando não se discute sobre a finitude da vida?
O Dr. Venceslau responde que são várias questões. O ideal é ouvir o paciente.
Muitas vezes a família não quer que o paciente saiba. Ele explica que é muito difícil cuidar de alguém que não tem o direito de falar das suas dores, das expectativas, do que é importante para ele, o que deve realizar antes de morrer, etc. Tem família que se desorganiza quando há alguém doente e não sabe lidar com uma doença grave na família. Ele costuma dizer que as doenças graves testam a família como unidade e na tomada de decisão.
O que ele vê é que tem muito do papel do médico de conversar com todo mundo. Às vezes conversa com a família, às vezes com o paciente e com todo mundo junto. Mas inicialmente há uma negação da situação.
Ao verbalizar nossos desejos, evitamos que nossas famílias fiquem sobrecarregadas com decisões difíceis em momentos de luto. É um ato de amor e cuidado com quem amamos.
O Dr. Venceslau cita a pesquisadora e psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross sobre as fases que antecedem a morte e que constam do seu livro “Sobre a Morte e o Morrer”. Segundo ela são 5 estágios: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação.
Livro: Sobre a Morte e o Morrer – Elisabeth Kübler-Ross
O que os doentes terminais têm para ensinar a médicos, enfermeiras, religiosos e aos seus próprios parentes.
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O Dr. Venceslau também comenta sobre o livro Mortais, do autor Atul Gawande, médico cirurgião americano, que declara o quão despreparado estava para lidar com a finitude do seu próprio pai.
Quando Atul Gawande escreveu o livro, já nas primeiras páginas você percebe que existem questões afetivas. Ele é um indiano, o pai era uma pessoa muito importante e lidar com a finitude do pai foi muito difícil.
Livro: Mortais – Atul Gawande
A corajosa narrativa de um médico que reconhece os limites da ciência e sabe de que modo ela pode nos proporcionar não apenas uma boa vida, mas também um bom fim.
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Entendendo os diferentes processos existentes em caso de doenças incuráveis em estágios avançados e que cause sofrimento ao paciente
- Distanásia – é a prática pela qual se prolonga, através de meios artificiais e desproporcionais, a vida de um enfermo incurável.
- Ortotanásia: permite-se que a vida do paciente cesse naturalmente. Admitem-se cuidados paliativos, a fim de garantir ao paciente o maior conforto possível em seu tempo restante de vida. Não ocorre a ação de interromper a vida do paciente, mas sim a omissão em forçar sua manutenção.
- Eutanásia (*): é a prática de interromper, ativamente, a vida do paciente, em estado irreversível, a fim de cessar seu sofrimento. Na eutanásia, a equipe médica administra a dose no paciente.
- Suicídio Assistido (*): a equipe médica fornece medicamentos e o próprio paciente administra a dose fatal.
(*) Tanto a eutanásia como o suicídio assistido são considerados crimes no Brasil porque a Constituição Federal prevê como direito fundamental e irrenunciável, o direito à vida.
A importância da definição das Diretivas Antecipadas de Vontade ou Testamento Vital
A Diretiva Antecipada de Vontade ou Testamento Vital é a manifestação formal de vontade de forma antecipada, em relação aos cuidados e tratamentos médicos para momentos em que a pessoa estiver incapacitada de se manifestar.
Para ajudar nesse processo, duas perguntas são importantes, segundo o geriatra Dr. Venceslau:
- Caso você fique muito grave e não consiga tomar decisões, quem as toma por você? É importante se certificar de que a pessoa já sabe e se o paciente esclareceu as suas vontades para essa pessoa porque há muitas que não conseguem seguir as vontades. Há muita angústia envolvida.
- Caso você fique muito grave e o seu filho/sua filha não consiga fazer o que o você pediu. Como você vê isso? A pessoa pode decidir se o médico pode seguir o que a pessoa designada decidiu ou não. Se deve tentar fazer prevalecer a vontade do paciente.
Quando o paciente já decide o que ele quer, fica mais fácil porque na conversa do médico com os familiares, ele pode reforçar a vontade do paciente. Mas a angústia da família pode mudar as decisões do paciente. De qualquer maneira, ainda temos muito que evoluir nesse assunto.
Cuidados Paliativos
Segundo a OMS-Organização Mundial da Saúde, Cuidados Paliativos consistem na assistência promovida por uma equipe multidisciplinar, que objetiva a melhoria da qualidade de vida do paciente e seus familiares, diante de uma doença que ameace a vida, por meio da prevenção e alívio do sofrimento, por meio de identificação precoce, avaliação impecável e tratamento de dor e demais sintomas físicos, sociais, psicológicos e espirituais.
“A maioria dos grandes hospitais em São Paulo hoje têm a sua própria equipe de cuidados paliativos” orienta o Dr. Venceslau. É preciso tirar o preconceito. Quando o médico diz para a família que vai chamar os cuidados paliativos, a família acha que o paciente vai morrer num curto espaço de tempo.
Os profissionais de Cuidados Paliativos são treinados e preparados para iniciar conversas que, muitas vezes, os familiares não conseguem ter.
Conversar sobre as questões do paciente, quanto ele ou ela quer falar sobre a doença, resolver questões de relacionamento, questões materiais, emocionais. Os profissionais de Cuidados Paliativos são formados e treinados para cuidar do paciente por longo tempo.
Sugestões para abordar o tema Finitude da Vida
Dr. Venceslau nos dá algumas sugestões de como começar a falar sobre a finitude da vida. Ele diz que ninguém gosta, mas em algum momento as pessoas precisam decidir sobre a finitude de alguém, ou da própria pessoa.
- Para quem quer e se acha preparado para decidir sobre a própria finitude: pode deixar um documento pronto de como quer que a tratem. Existem muitos documentos e ebooks na internet. Podem pesquisar como Testamento Vital ou Diretiva Antecipada de Vontade. Aqui segue o link da SBGG- Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia: https://sbgg.org.br/minhas-vontades-aplicativo-das-diretivas-antecipadas-de-vontade/
- Quando a pessoa não quer, mas precisa falar sobre a finitude da vida. O ideal é conversar com um médico ou um profissional de saúde que possa ajudar. Muitas pessoas não têm condição emocional para lidar com essa situação. Nesse caso é melhor chamar um psicólogo; um profissional para ajudá-la.
- “Cartas na Mesa” – jogo de cartas para falar sobre a finitude Jogo de cartas muito interessante que ajuda a falar sobre o assunto e estimula a conversa com o paciente sobre suas preferências ao final da vida. São cartas com frases que o paciente vai selecionando e definindo suas preferências: “não quero dar trabalho para meu filho”, quero um médico que possa confiar, etc.”.
Na opinião do Dr. Venceslau é uma oportunidade para ouvir os pacientes, facilitando para eles a expressão das suas vontades e preferências em relação ao final da vida. É ótimo para família e para os pacientes.
Jogo Cartas na Mesa da SBGG -Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia

Dr. Venceslau – Contatos
Consultório do Dr. Venceslau Coelho: (11) 91318-5339.
Vamos encarar a conversa sobre a finitude não como um adeus, mas como uma forma de viver plenamente e com propósito. É um convite para abraçar a vida com toda a sua beleza e complexidade, e para ter a certeza de que a história que vivemos foi exatamente como queríamos que ela fosse. Que tal começar essa conversa hoje?
Assista o bate papo integral da nossa Fundadora com o Dr. Venceslau Coelho acessando o canal do YouTube da Estilo 5.0+:
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Um abraço!
Time Estilo 5.0+
Fontes:
Vídeos:
Como lidar com a finitude? Ana Beatriz – 06:05
Finitude da vida – Denise fraga – 01:22
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