Estamos vivendo a era da “medicalização da existência”. É importante diferenciar o que exige medicamento das nossas aflições emocionais cotidianas.
Nos tornamos mais resilientes quando aprendemos a lidar com o turbilhão de emoções que nos atropela diariamente.
Muitas vezes, ao chegarmos em uma certa fase da vida, parece que o mundo quer nos convencer de que qualquer tristeza é depressão, qualquer cansaço é fadiga crônica e qualquer luto é um transtorno. Mas há uma verdade que a maturidade nos ensina, se estivermos dispostas a ouvir: sofrimento não é doença.
O Peso da Experiência
Ao longo dos anos, acumulamos perdas, despedidas e mudanças hormonais e sociais. É natural que o coração aperte. No entanto, existe uma diferença fundamental entre a patologia (aquilo que paralisa as funções vitais) e a dor existencial (aquilo que nos faz humanos).
A tristeza pode ser um sinal de que algo precisa mudar, ou simplesmente um tributo a algo que amamos e perdemos.
A angústia pode ser o chamado para uma nova identidade que está tentando nascer agora que os filhos cresceram ou a carreira mudou.
A Tirania da “Felicidade Obrigatória”
Vivemos em uma era que exige o sorriso constante e a produtividade impecável. Para a mulher madura, essa pressão é dobrada: espera-se que sejamos o pilar da família, a profissional experiente e a mulher que “envelhece sem parecer que envelheceu“. Quando o sofrimento bate à porta, a tendência é buscar um remédio rápido para silenciá-lo.
Segundo Khalil Gibran, ensaísta, filósofo, prosador e poeta: “A dor é o processo de quebrar a casca que envolve o seu entendimento.”
Honrando a sua História
Tratar todo sofrimento como doença é, de certa forma, desonrar a sua trajetória. Se você sofre, é porque viveu, porque se importou e porque tem profundidade. A doença é a ausência de saúde; o sofrimento, muitas vezes, é o excesso de vida tentando encontrar um novo lugar dentro de nós.
Livro: Sofrimento Não é Doença

Sofrimento não é doença: Nem todas as dores precisam de remédio, mas todas merecem cuidado- Por Daniel Martins de Barros.
Você está triste ou está doente? Entender a diferença pode mudar sua vida.
Psiquiatra e autor do livro Sofrimento Não é Doença, Daniel Martins de Barros explica que esse movimento causa um desgaste que exige energia extra e coloca a pessoa num patamar inferior ao da existência que ela poderia ter., “No entanto, esse sofrimento é inerente ao ser humano. Somos seres imperfeitos, num mundo imperfeito, composto por coisas perecíveis que se desgastam.”
“Precisamos reaprender a sofrer. Fugir do sofrimento não está funcionando. Ao longo deste livro, vamos descobrir que as doenças devem ser diagnosticadas e tratadas, mas os excessos em diagnósticos e medicação devem ser evitados – e é preciso reconhecer que o sofrimento não deixará de existir. Assim seremos capazes de encontrar formas melhores de lidar com ele.” – Daniel Martins de Barros.
Daniel Martins de Barros acredita que o sofrimento, quando compartilhado, é reduzido. Para ele, tudo começa no cuidado. “Cuidar é prestar atenção. Vem de cogitar, de refletir. Cuidar de alguém é pensar sobre aquela pessoa, é levar em consideração verdadeiramente a situação que ela está vivendo. Quando a gente cuida, alivia o sofrimento”, afirma.
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Medicalização da existência
Em matéria publicada na revista Vida Simples, o artigo destaca vários aspectos do Sofrimento.
A palavra sofrer vem do latim sufferre, composta pelo prefixo sub (por baixo, embaixo) e o verbo ferre (carregar, transportar). Em essência, “sofrer é estar sob o peso de uma carga”. Imagine uma relação – amorosa ou não – que está num momento de descompasso: a balança emocional pesa mais para um lado. Quem fica na parte mais baixa, ou no ponto mais frágil da corda, é quem sofre.
Um turbilhão de emoções:
Mas será que precisamos de uma pílula para acordar, outra para dormir. E se a ansiedade chegar, vamos logo consumir algum medicamento que atue no sistema nervoso?
Embora muitas situações requeiram um tratamento medicamentoso, estamos vivendo uma era de não querer sofrer, nem sentir desconforto. É a medicalização do sofrimento: angústias, sentimentos e emoções que fazem parte da vida, mas que encontram conforto na medicação, anestesiando a dor natural de existir.
Esse contexto nos remete a 1930, quando o médico neurologista e pai da psicanálise Sigmund Freud abordou a fuga do sofrimento em um dos seus principais textos sociais: O Mal-estar na Civilização.
“Ele questiona esse conflito que parece insolúvel entre as exigências da sociedade e a busca incessante por felicidade. Além disso, afirma que tentamos preencher a consciência com algo externo para não lidar com o desconforto de dentro”.
O mal-estar na civilização (1930) – Freud

Freud destaca que substâncias proporcionam “um desejado grau de independência do mundo externo”, permitindo que o indivíduo se “afaste da pressão da realidade e encontre refúgio num mundo próprio”. Quase um século depois, o texto parece não ter envelhecido – apesar de ter sido escrito em outro contexto histórico e abordar diversos temas, não apenas o sofrimento. De lá para cá, a diferença talvez seja a escala e o poder viciante dos estímulos e substâncias da vida moderna.
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Epidemia de solidão
Quando a tela do celular apaga, evitamos olhar para nosso próprio vazio, nossa incompletude. Quase uma “epidemia de solidão” num mundo hiper conectado. Pouco a pouco, perdemos a capacidade de sentir, principalmente quando dói. Todo ser humano é único e tem sua trajetória marcada por sorrisos e feridas. Como escreveu Caetano Veloso em Dom de Iludir, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Mas, para realmente sabermos, precisamos atravessar as angústias – e não fugir delas.
Na visão da psicanalista Ana Lisboa, “acostumar-se com a medicação é deixar de viver. É impedir o aprendizado. É reprimir tanto os sentimentos que o sujeito se desintegra de si e perde a ânima da vida. A dependência emocional e psíquica que nasce desse movimento afasta a pessoa da própria história e das transformações que poderiam emergir do contato honesto com a dor”, ela observa.
A eterna busca pela felicidade
Vencedora do Prêmio Jabuti 2025 na categoria Saúde e Bem-estar com o livro Felicidade Ordinária (Zahar), a psicanalista Vera Iaconelli ressalta que um dos principais motivos da medicalização do sofrimento está na lógica social que impõe a obrigação de sermos felizes o tempo todo – uma exigência irreal que adoece.
“Nossa visão equivocada de felicidade supõe uma existência sem sofrimento. Mas não existe vida sem sofrimento. Adoecimento não é obrigatório, embora aconteça em algum momento da vida, mas o sofrimento é constitutivo da existência humana”, complementa.
No caminho do bem-viver
Se ainda não encontramos a saída desse labirinto em que a medicalização da existência nos colocou, vimos que há uma fresta por onde seguir: identificar sintomas, respeitar e acolher.
Às vezes um café com uma amiga que entende o peso dos anos cura mais do que um diagnóstico apressado. Busque acolhimento. Amigos, relacionamentos “olho no olho” e permita-se sentir mais. Lembre-se que viver é, antes de tudo, um percurso compartilhado da existência.
Respire fundo. Você não está doente por sentir o peso do mundo; você está apenas viva, e viver, às vezes, dói. E tudo bem.
Estar triste de vez em quando não é estar destruída. O sofrimento é uma passagem, um rito que nos lapida, nos faz crescer. Na maturidade, temos a sabedoria para entender que as nuvens passam, mas o céu — a nossa essência — permanece o mesmo.
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Estilo 5.0
Fontes
https://vidasimples.co/saude-emocional/sofrimento-nao-e-doenca/
https://ipqhc.org.br/2025/09/26/sofrimento-nao-e-doenca/
Vídeos
Sofrimento não é doença – danielmbarros- 01:15
https://www.instagram.com/reels/DOOffzEkaIT/
Diferença entre tristeza e depressão – Daniel Barros
Solidão vira Epidemia global e Redes Sociais pioram o sentimento de inadequação | Universo Karnal- 02:04
Psiquiatra explica a Ciência para ser FELIZ – Ana Beatriz Barbosa- 04:11
https://youtu.be/cMI0aKZVNzs?si=hN6HQwR0Gh7l5bEQ
